As Melhores Práticas para Formatação de Roteiros

Ilustração mostra plateia de cinema vendo mão gigante expondo uma página de roteiro gigante, sobre formatação de roteiros

Se você quer escrever um roteiro para cinema, TV ou demais produtos audiovisuais, é importante conhecer as regras e as melhores práticas para a formatação do seu documento. A boa formatação de roteiros facilita a leitura, a compreensão e a produção de uma obra audiovisual, além de demonstrar profissionalismo.

Do começo: o que é um roteiro

Um roteiro é a forma escrita de produções audiovisuais, contendo suas cenas e os diálogos. Pode-se dizer que é o filme “por escrito”, um documento feito antes da gravação que serve para que o projeto tome forma, as locações ou lugares onde vai se filmar sejam definidos, o diretor do audiovisual conheça os personagens e possa selecionar os atores. Serve também para que os atores conheçam seus personagens e aprendam as suas falas, e a equipe de produção priorize seu trabalho e decida a ordem de gravação das cenas, que raramente são filmadas na ordem cronológica, e sim na ordem em que locações e outros requisitos ficam disponíveis.

Vale relembrar que os roteiros também são uma forma de narrativa, que precisa ter uma estrutura, um conflito, um clímax e uma resolução. Embora o roteiro precise ser objetivo, essa objetividade não exclui a necessidade de (auxiliar o diretor a) envolver o espectador com uma história interessante, original e bem contada.

Escrevi um artigo com foco nessa parte de escrita criativa da roteirização, que precedeu este artigo que você lê agora e se chama As Melhores Práticas para Escrita de Roteiros, não deixe de ler esse também.

Formatação Master Scenes

Vamos focar na formatação de roteiros chamada Master Scenes, que é um padrão amplamente utilizado na indústria audiovisual, e é importante por várias razões, veja algumas delas:

  • Cria um padrão visual, facilitando a leitura;
  • Possibilita uma noção da duração do filme, uma vez que cada página formatada corresponde em média a um minuto de filme;
  • Obriga o roteirista a focar no que de fato é importante para a construção da história, oferecendo certas limitações descritivas que não são fundamentais ao roteiro.

Configurando seu editor de texto

A Master Scenes utiliza, quando impresso, as seguintes configurações de texto:

  • Fonte: Courier New, tamanho 12;
  • Tamanho do documento: Papel de carta (21,59cm x 27,94cm);
  • Margens: Esquerda: 3,8cm, Direita: 2,5cm, Superior e Inferior: 2,5cm;
  • Cabeçalho de Cena: Começa na margem esquerda (sem recuo);
  • Nome do Personagem: 10 cm de recuo;
  • Transição: Alinhamento à direita (não justificado);
  • Diálogos: Recuo à esquerda: 7,5 cm e à direita: 5 cm;
  • Ação: Margem esquerda: 3,8cm;
  • Parentética: 7,5 cm de recuo;
  • Espaçamento: Espaçamento simples nos blocos de diálogos e duplos ao longo do roteiro;
  • Numeração: Parte superior direita.

Essas medidas são aproximadas e podem variar um pouco, dependendo do aplicativo que você estiver usando. Vou falar sobre esses softwares, muito úteis, no final deste artigo.

A estrutura formal

Agora a alma do negócio, como estruturar a forma do roteiro. Na Formatação Master Scenes os seguintes padrões de formatação são utilizados, vou falar brevemente sobre eles e depois dar exemplos práticos:

  • Cabeçalho de cena: indicam o início da cena, informando o número da cena que organiza a ordem cronológica das cenas no roteiro, sua localização, que indica se a cena se passa em um ambiente interno (INT.) ou externo (EXT.), seguido do nome do lugar específico (SALA DE AULA) e, por fim, a luz ou tempo, que descreve a iluminação ou o período do dia em que a cena se passa, como DIA, NOITE, AMANHECER, ENTARDECER, etc. sendo que o mais comum é o uso apenas de DIA (durante a luz do dia) ou NOITE (sem a luz do dia). Exemplo: “INT. SALA DE AULA – DIA”;
  • Ação: descreve o que está acontecendo na cena, que informações no cenário são importantes para a compreensão da história, o que os personagens estão fazendo e todos os elementos visuais que compõem a cena. Exemplo: “Um professor de meia-idade, ALBERTO, escreve no quadro-negro a equação E=mc².”;
  • Nome do personagem: indica quem está falando na cena. O nome deve estar em caixa alta e centralizado na página, você vai ver isso acontecer nos diálogo do exemplo de roteiro mais abaixo;
  • Diálogo: são as falas dos personagens na cena. O diálogo deve estar alinhado ao centro, com recuo à esquerda e à direita (em centímetros, ver acima), abaixo do nome do personagem. No exemplo de roteiro mais abaixo, por limites aqui do site, tive que alinhar os diálogos ao centro, mas neste caso recuo as margens direita e esquerda desse trecho do texto em 20%;
  • Parentéticas: são as indicações de como o personagem deve falar ou agir durante o diálogo. Deve estar entre parênteses, alinhado à esquerda e à direita, abaixo do nome do personagem e acima do diálogo. Novamente, no exemplo de roteiro abaixo, o alinhamento foi centralizado, procure: “(voz sem entusiasmo)”;
  • Transição: são as indicações de como a cena termina ou como a próxima cena começa. Deve estar em caixa alta e alinhada à direita, abaixo da ação ou do diálogo. Exemplos: “CORTA PARA:” e “FADE OUT”, sendo este último aquele momento em que a tela escurece no final de uma cena ou de todo o filme.

Meu site, que toma como base um sistema chamado WordPress, não me permite formatar com rigor um roteiro, pelo menos ainda não descobri como fazer isso, mas, da melhor forma possível, segue um exemplo de uma cena formatada:

1 – INT. SALA DE AULA – DIA

Um professor de meia-idade, OLEGÁRIO, escreve no quadro-negro a equação E=mc². Ele se vira para os alunos, que estão entediados e distraídos.

OLEGÁRIO
Vocês sabem o que essa equação significa?

Ninguém responde. Alberto suspira.

OLEGÁRIO
(voz sem entusiasmo)
Essa é a famosa equação da relatividade de Albert Einstein, que relaciona a energia com a massa e a velocidade da luz.

Ele aponta para o quadro com o giz.

OLEGÁRIO
E é a energia, E, igual à massa, m, multiplicada pelo quadrado da velocidade da luz, c.

Ele olha para os alunos novamente, esperando alguma reação.

OLEGÁRIO
Nada? Ninguém se impressiona com essa genialidade?

Um aluno levanta a mão timidamente.

ALUNO
(“desabado” na cadeira de sua mesa)
P’fessor, com todo o respeito e tals, mas qual é a utilidade disso daí na vida real?

Alberto sorri.

OLEGÁRIO
Boa pergunta. Essa equação tem muitas aplicações práticas, como por exemplo…

CORTA PARA:

2 – EXT. FLORESTA TROPICAL – DIA

Uma enorme explosão nuclear rasga o horizonte e ilumina o céu. O som é ensurdecedor.

FADE OUT.

Basicamente, é isso. Podemos ir passo a passo, para que você não fique com dúvidas (se sobrar alguma dúvida, manda nos comentários aqui embaixo, que eu tento resolver, está bem?). Vejamos a seguir a formatação passo a passo.

O cabeçalho de cena e a descrição da ação

O formato Master Scenes divide o roteiro em cenas, que são unidades narrativas que ocorrem em um mesmo lugar e tempo. Cada cena é identificada por um cabeçalho, que contém as seguintes informações:

O cabeçalho é escrito todo em letras maiúsculas e alinhado à esquerda da página. Por exemplo:

1 – INT. NAVE ESPACIAL – NOITE

Abaixo do cabeçalho, vem a descrição da ação, que é o que acontece na cena. A ação é escrita em terceira pessoa, no tempo presente e sem comentários ou interpretações do roteirista. A descrição deve ser concisa e precisa, focando nos elementos visuais e sonoros que são relevantes para a história. A ação é escrita com fonte normal e alinhada à margem esquerda da página. Por exemplo:

1 – INT. NAVE ESPACIAL – NOITE

A NAVE ESPACIAL está danificada e sem energia. Fios soltos soltam faíscas. Painéis piscam e apagam. ALICE, uma astronauta de 30 anos, está presa em uma cápsula de emergência. Ela veste um traje espacial rasgado e sujo de sangue. Ela tenta se comunicar pelo rádio, mas só recebe estática.

O diálogo

Em seguida, vem o diálogo, que é o que os personagens falam na cena.

Lembrando que o diálogo é escrito com fonte normal e alinhado ao centro da página, com recuo à esquerda (7 cm) e à direita (4 cm).

Cada fala começa com o nome do personagem que fala, escrito em letras maiúsculas e seguido de dois pontos. Se o personagem fala fora da cena (OFF ou O.S. de off-screen) ou em voz sobreposta (V.O. de Voice-over, comum naqueles documentário onde você ainda escuta o áudio original ao fundo), isso deve ser indicado entre parênteses após o nome do personagem, esse trecho de informação se chama parentéticas, como já vimos, neles também podem ser acrescentadas as indicações de como o personagem deve falar ou agir durante o diálogo.

Dica rápida, a fala do personagem deve ser sempre natural e coerente com a personalidade e o contexto dos personagens. Vale reparar que o personagem só é nomeado no momento em que é nomeada pela primeira vez na descrição da ação ou no próprio diálogo. Por exemplo:

1 – EXT. NAVE ESPACIAL – NOITE

A NAVE ESPACIAL está danificada e sem energia, vagando no espaço em órbita de Marte.

HOMEM
(O.S. voz serena)
A humanidade poderia ter tido alguma chance de se preparar…

MULHER
(sua voz pelo rádio)
Aqui é Alice, da missão Delta-5. Alguém me copia?

CORTA PARA:

2 – INT. NAVE ESPACIAL – NOITE

Fios soltos expelem faíscas. Painéis piscam e apagam. ALICE, uma astronauta de 30 anos, está presa em uma cápsula de emergência. Ela veste um traje espacial rasgado e sujo de sangue. Ela tenta se comunicar pelo rádio, mas só recebe estática.

ALICE
(em choque, falando pausadamente)
Aqui é Alice, da missão Delta-5. Alguém me copia? Repito, aqui é Alice, da missão Delta-5. Alguém me copia?

Nenhuma resposta.

ALICE
(olhando em volta, despertando do torpor)
Por favor, alguém responda! Estou presa na nave espacial Sigma-7, em órbita de Marte. A nave foi atacada por uma forma de vida desconhecida. Todos os outros tripulantes estão mortos. Preciso de ajuda urgente!

Nenhuma resposta.

ALICE
(entre os dentes)
Droga! Será que ninguém está me ouvindo? Será que estou sozinha no espaço?

Ela olha pela janela da cápsula e vê o planeta vermelho.

ALICE
(soturna)
Marte… Você é a minha única esperança.

Um detalhe, você reparou que Alice, em sua primeira fala, quando ainda nem está nomeada, surge no roteiro apenas como “mulher”? E que ela não está em OFF, apesar de naquele momento só se ouvir sua voz?

Isso ocorre porque ela está na cena, só não aparece na tela. Assim, a voz em OFF refere-se, em essência, a narradores, sejam eles personagens ou não. Um personagem pode narrar determinada cena em OFF, onde ele sabe o que aconteceu, mas não estava lá, e várias cenas depois aparecer em uma outra cena falando pelo rádio ou de dentro de uma caixa de madeira e não está visível, neste último caso este personagem não está em OFF.

A transição

Por fim, vem a transição, que é uma indicação de como a cena termina e como a próxima cena começa. Só use a transição quando for necessária para a compreensão ou o efeito da história. Ela deve ser escrita em letras maiúsculas e alinhada à direita da página. As transições mais comuns são:

  • CORTE PARA: você a viu em ação ali em cima, ela indica uma mudança abrupta de cena;
  • DISSOLVE PARA: indica uma mudança gradual de cena, com uma sobreposição de imagens;
  • FADE IN: indica o início do filme, com a imagem surgindo do preto;
  • FADE OUT: indica o final do filme, com a imagem desaparecendo no preto.

Vejamos outro exemplo:

1 – EXT. NAVE ESPACIAL – NOITE

A NAVE ESPACIAL está danificada e sem energia, vagando no espaço em órbita de Marte.

HOMEM
(O.S. voz serena)
A humanidade poderia ter tido alguma chance de se preparar…

MULHER
(pelo rádio)
Aqui é Alice, da missão Delta-5. Alguém me copia?

CORTA PARA:

2 – INT. NAVE ESPACIAL – NOITE

Fios soltos expelem faíscas. Painéis piscam e apagam. ALICE, uma astronauta de 30 anos, está presa em uma cápsula de emergência. Ela veste um traje espacial rasgado e sujo de sangue. Ela tenta se comunicar pelo rádio, mas só recebe estática.

ALICE
(em choque, falando pausadamente)
Aqui é Alice, da missão Delta-5. Alguém me copia? Repito, aqui é Alice, da missão Delta-5. Alguém me copia?

Nenhuma resposta.

ALICE
(olhando em volta, despertando do torpor)
Por favor, alguém responda! Estou presa na nave espacial Sigma-7, em órbita de Marte. A nave foi atacada por uma forma de vida desconhecida. Todos os outros tripulantes estão mortos. Preciso de ajuda urgente!

Nenhuma resposta.

ALICE
(entre os dentes)
Droga! Será que ninguém está me ouvindo? Será que estou sozinha no espaço?

Ela olha pela janela da cápsula e vê o planeta vermelho.

ALICE
(soturna)
Marte… Você é a minha única esperança.

CORTE PARA:

3 – EXT. BASE ESPACIAL – DIA

Uma BASE ESPACIAL moderna e movimentada na Terra. Vários foguetes e satélites são lançados e monitorados. Um letreiro diz: AEB – AGÊNCIA ESPACIAL BRASILEIRA – CENTRO DE CONTROLE DE MISSÕES. Em um dos consoles, um HOMEM está sentado em frente a uma tela de computador onde se lê “CHEGANDO MENSAGEM – ASTRONAUTA ALICE PEREIRA”, e abaixo desses dizeres, em vermelho, está escrito “ATENÇÃO, OPERADOR ACIONOU O MUTE”.

HOMEM
(voz serena, falando baixo, consigo mesmo)
… Mas nós já estávamos aqui, impedindo que a humanidade fosse avisada.

Aplicativos para formatação de roteiros

Por fim, aquela dica marota sobre softwares que podem te ajudar na formatação adequada de seus roteiros.

Final Draft: Usado por 95% das produções de cinema e televisão, é um software premiado que permite formatar, editar e visualizar roteiros de forma profissional e criativa. Possui ferramentas avançadas de colaboração, visualização e brainstorming. É um software pago, mas oferece um período de teste gratuito de 30 dias. Link: https://www.finaldraft.com/

Celtx: o que eu costumo usar, é um APP baseado em nuvem que permite escrever e produzir roteiros de mídia em diferentes plataformas. Além da formatação padrão da indústria, oferece recursos como lista de objetos, análise técnica e storyboard. É um software gratuito, mas possui planos pagos com mais funcionalidades. Link: https://www.celtx.com/index.html

WriterDuet: focado na escrita colaborativa, que permite editar e compartilhar roteiros em tempo real com outros roteiristas. Também possui integração entre as diversas plataformas (web, android e ios). É um software gratuito, mas limita o número de projetos a três. Para ter acesso ilimitado, você vai precisar assinar um plano pago. Link: https://writerduet.com/

Studio Binder: oferece uma ampla gama de ferramentas para produção e trabalho colaborativo. Além de formatar roteiros, permite criar planos de filmagem, cronogramas, listas de chamadas e muito mais. É um software gratuito, mas também possui planos pagos com mais recursos. Link: https://www.studiobinder.com/

Google Drive / Word: são, óbvio, os editores de texto mais populares, que você pode usar para escrever roteiros com a formatação manual adequada. São gratuitos e fáceis de usar, inclusive o Word em sua versão online também é free, mas não possuem recursos específicos para roteiristas, para fazer seus roteiros neles, formate o arquivo conforme descrevi ali em cima, quando comentei as configurações de texto para impressão. Links: https://drive.google.com/ e https://www.microsoft.com/pt-br/microsoft-365/word

EasyMovie: EasyMovie é uma ferramenta online que facilita a criação e formatação de roteiros para vídeos. Permite subir imagens para cada cena, contar a duração das cenas e do vídeo total e exportar o roteiro em PDF ou DOCX. É um software gratuito, mas possui planos pagos com mais opções. Link: https://www.easymovie.com.br/site/ferramenta-de-roteiro

Dúvidas? Sugestões, correções ou críticas? Vamos conversar nos comentários aqui embaixo.

Algumas fontes utilizadas para a confecção deste artigo:

Por Wagner RMS

As Melhores Práticas para Formatação de Roteiros
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