Técnicas para Criação de Personagens

Imagem ilustrayiva do artigo sobre criação de personagens literários, com homem e mulher estilizados tocando as mãos e em um livro ou tablet.

Uma das tarefas mais importantes e desafiadoras de um escritor é criar personagens que sejam verossímeis, interessantes e memoráveis. Mas como fazer isso? Quais são as técnicas literárias que podem te ajudar a dar vida aos seus protagonistas, antagonistas e coadjuvantes? Neste artigo, quero te explicar um pouco sobre como explorar algumas das técnicas mais atuais de criação de personagens, baseadas em conceitos como arquétipos, motivações, conflitos, arcos, voz e mais.

No final do artigo, vou te mostrar como unificar quase tudo sobre o que conversamos em uma Ficha de Personagem que será sua ferramenta base para conhecer sua cria e mantê-la única.

Lembre-se que não costumo escrever pouco, mas sim o necessário para construir junto com você boas noções dos temas abordados. Então vamos lá, começando pela natureza mais básica dos personagens, os arquétipos que os governam.

Arquétipos

Um arquétipo é um modelo ou padrão que representa um tipo de personagem com características e funções específicas na história contada. Alguns exemplos são o herói, o vilão, o mentor, o aliado, o trapaceiro, etc. Assim, arquétipos podem ser usados como uma ferramenta para definir o papel e a personalidade de cada personagem e as suas relações com os outros.

Arquétipos não devem ser confundidos com estereótipos ou clichês, que são personagens superficiais e previsíveis. Os arquétipos são apenas pontos de partida, que devem ser desenvolvidos e aprofundados por nós, que escrevemos.

No livro “A Writer’s Guide to Characterization: Archetypes, Heroic Journeys, and Other Elements of Dynamic Character Development” de Victoria Lynn Schmidt, por exemplo, a autora oferece 40 lições práticas sobre como desenvolver personagens que cativam os leitores. Além disso, ela apresenta 15 arquétipos de personagens que podem servir como modelos para construir perfis de personagens complexos e coerentes.

Cada arquétipo tem suas próprias características, pontos fortes, fraquezas, medos, desejos e jornadas heroicas. O livro explica cada um dos 15 arquétipos mais ou menos assim:

  1. O Inocente: é o personagem que tem uma visão otimista e ingênua da vida, que busca a felicidade e a harmonia, mas que pode ser facilmente enganado ou manipulado;
  2. O Órfão: é o personagem que se sente abandonado ou rejeitado pelo mundo, que busca pertencer e se conectar com os outros, mas que pode ser cínico ou desconfiado;
  3. O Guerreiro: é o personagem que tem uma forte vontade e determinação, que busca o sucesso e a vitória, mas que pode ser arrogante ou agressivo;
  4. O Cuidador: é o personagem que tem um grande senso de compaixão e generosidade, que busca ajudar e proteger os outros, mas que pode ser submisso ou auto sacrificante;
  5. O Explorador: é o personagem que tem um espírito aventureiro e curioso, que busca a liberdade e a novidade, mas que pode ser irresponsável ou insatisfeito;
  6. O Rebelde: é o personagem que tem uma atitude desafiadora e questionadora, que busca a mudança e a revolução, mas que pode ser destrutivo ou anárquico;
  7. O Amante: é o personagem que tem uma grande capacidade de amar e se apaixonar, que busca a intimidade e a beleza, mas que pode ser dependente ou ciumento;
  8. O Criador: é o personagem que tem uma mente criativa e imaginativa, que busca a expressão e a originalidade, mas que pode ser perfeccionista ou narcisista;
  9. O Governante: é o personagem que tem um senso de autoridade e liderança, que busca o poder e o controle, mas que pode ser tirânico ou corrupto;
  10. O Sábio: é o personagem que tem um grande conhecimento e inteligência, que busca a verdade e a sabedoria, mas que pode ser arrogante ou isolado;
  11. O Mágico: é o personagem que tem uma habilidade especial ou sobrenatural, que busca a transformação e a realização, mas que pode ser ilusório ou manipulador;
  12. O Herói: é o personagem que tem uma coragem extraordinária e um senso de dever, que busca o heroísmo e a honra, mas que pode ser fanático ou imprudente;
  13. O Forasteiro: é o personagem que tem uma personalidade única e incomum, que busca a individualidade e a autenticidade, mas que pode ser excêntrico ou alienado;
  14. O Bobo da Corte: é o personagem que tem um senso de humor e diversão, que busca o prazer e a alegria, mas que pode ser irresponsável ou infantil;
  15. O Sombra: é o personagem que representa os aspectos negativos ou reprimidos da personalidade, que busca a destruição ou a vingança, mas que pode ser redimido ou integrado.

Construa os perfis de seus personagens seguindo esses passos:

  1. Escolha um arquétipo principal para o seu personagem, aquele que define sua essência e sua jornada na história;
  2. Escolha um arquétipo secundário para o seu personagem, aquele que complementa ou contrasta com o principal, criando nuances e conflitos;
  3. Escolha um arquétipo sombra para o seu personagem, aquele que representa seu lado obscuro ou seu antagonista, criando tensão e desafios;
  4. Preencha os detalhes do seu personagem, como nome, idade, aparência, história, personalidade, objetivos, conflitos, etc., usando os arquétipos como guias;
  5. Revise e ajuste o seu personagem conforme a sua história se desenvolve, mantendo a consistência e a coerência dos arquétipos.

Motivações

As motivações são os desejos, necessidades e objetivos que movem os personagens a agir. Elas são essenciais para dar sentido e coerência às suas ações e reações, bem como para gerar empatia e identificação com o leitor. As motivações podem ser internas ou externas, conscientes ou inconscientes, explícitas ou implícitas. O importante é que elas sejam claras e consistentes ao longo da história, e que estejam relacionadas com o tema e o conflito central da obra.

Provavelmente já ouviu falar do livro “The Anatomy of Story: 22 Steps to Becoming a Master Storyteller” de John Truby, um dos mais renomados consultores de roteiro de Hollywood.

Truby defende que os personagens devem ser complexos, contraditórios e dinâmicos, ou seja, capazes de mudar ao longo da história. Para isso, ele sugere que o escritor defina quatro elementos essenciais para cada personagem principal, como forças motivadoras de seu avanço: a necessidade, o desejo, a fraqueza e o segredo.

A necessidade é o que o personagem precisa aprender ou superar para se tornar uma pessoa melhor. É o tema da história, o objetivo final do arco do personagem. O desejo é o que o personagem quer alcançar na história, o objetivo externo que impulsiona a trama. A fraqueza é o defeito ou a limitação do personagem que o impede de satisfazer sua necessidade e seu desejo. O segredo é algo que o personagem esconde dos outros ou de si mesmo, que gera tensão e mistério.

Esses quatro elementos devem estar relacionados entre si e com a premissa da história, criando um conflito interno e externo para o personagem. Além disso, eles devem evoluir ao longo da história, à medida que o personagem enfrenta obstáculos e desafios. Quem escreve deve mostrar como o personagem muda sua atitude, suas crenças e suas ações em relação à sua necessidade, seu desejo, sua fraqueza e seu segredo.

Os 22 passos que Truby apresenta no livro são uma forma de estruturar a história em torno do desenvolvimento do personagem principal, à partir de suas motivações:

  1. Premissa: a ideia central da história, expressa em uma frase que contém o protagonista, o conflito e a mudança;
  2. Gênero: o tipo de história que se está contando, definido pelas expectativas do público, as convenções e os valores em jogo.;
  3. Público-alvo: o grupo de leitores ou espectadores para quem se está escrevendo, definido pela faixa etária, pelo gosto e pelo nível de sofisticação;
  4. Design do mundo: o cenário físico e social onde se passa a história, definido pela época, pelo lugar e pela atmosfera;
  5. Moralidade: o sistema de valores que rege a história, definido pelo bem e pelo mal, pelo certo e pelo errado, pelo justo e pelo injusto;
  6. Estaca: o que está em jogo na história, definido pelo grau de perda ou ganho para o protagonista e para os outros personagens;
  7. Revelação do protagonista: a primeira impressão que se tem do personagem principal, definida pela sua aparência, pela sua personalidade e pela sua situação inicial;
  8. Necessidade: o que o protagonista precisa aprender ou superar para se tornar uma pessoa melhor.
  9. Desejo: o que o protagonista quer alcançar na história;
  10. Adversário: o personagem ou a força que se opõe ao desejo do protagonista, definido pela sua força, pela sua motivação e pela sua relação com o protagonista;
  11. Aliado: o personagem ou a força que ajuda ou apoia o protagonista na busca pelo seu desejo;
  12. Personagem falso-aliado: o personagem que parece ser um aliado do protagonista, mas na verdade é um adversário ou tem interesses conflitantes;
  13. Personagem falso-adversário: o personagem que parece ser um adversário do protagonista, mas na verdade é um aliado ou tem interesses comuns;
  14. Fraqueza: o defeito ou a limitação do protagonista que o impede de satisfazer sua necessidade e seu desejo;
  15. Segredo: algo que o protagonista esconde dos outros ou de si mesmo, que gera tensão e mistério.
  16. Fantasma: algo do passado do protagonista que o assombra ou o influencia, que está relacionado à sua necessidade, ao seu desejo, à sua fraqueza e ao seu segredo;
  17. Incitante: o evento que desencadeia a história, que coloca o protagonista em movimento em direção ao seu desejo;
  18. Progressão: a sequência de eventos que compõem a história, que aumentam o conflito e a complexidade, que testam e transformam o protagonista;
  19. Crise: o ponto de maior tensão e conflito da história, que obriga o protagonista a fazer uma escolha difícil entre o seu desejo e a sua necessidade;
  20. Clímax: o resultado da escolha do protagonista na crise, que resolve o conflito principal da história, que mostra a mudança do protagonista;
  21. Resolução: o desfecho da história, que mostra as consequências do clímax para o protagonista e para os outros personagens, que amarra as pontas soltas;
  22. Tema: a mensagem ou a lição que se quer transmitir com a história, que se baseia na mudança do protagonista.

Esses 22 passos não são uma fórmula rígida, o importante é que eles sirvam para desenvolver o personagem principal de forma consistente e dinâmica, fazendo com que ele cresça e mude ao longo da história, impulsionado por sua necessidade de alcançar o que os motiva.

Conflitos

Já falei um pouco sobre eles acima, mas vamos colocá-los em foco. Os conflitos são os obstáculos que os personagens enfrentam para alcançar as suas motivações. Eles são os motores da narrativa, pois geram tensão, suspense e interesse pelo desfecho. Os conflitos podem ser de três tipos: externos (entre o personagem e uma força externa, como outro personagem, a natureza, a sociedade, etc.), internos (entre o personagem e ele mesmo, como um dilema moral, um trauma, um medo, etc.) ou mistos (entre o personagem e ambos os tipos de forças). Os conflitos devem ser proporcionais às motivações dos personagens, e devem se intensificar ao longo da história.

No livro “The Art of Character: Creating Memorable Characters for Fiction, Film, and TV” de David Corbett, um renomado autor e professor de escrita criativa, ensina que a transformação do personagem é o processo pelo qual ele muda ao longo da história, em resposta aos desafios e conflitos que enfrenta. David Corbett afirma que toda história é uma história de transformação e que o escritor deve ter clareza sobre qual é o arco dramático do personagem, ou seja, como ele começa e como ele termina a história.

Corbett explica como criar personagens secundários que complementem ou contrastem com o protagonista e como estabelecer as relações entre eles. O autor também discute como criar antagonistas que representem obstáculos reais e interessantes para o protagonista e como evitar clichês e estereótipos.

Mas como criar e desenvolver os conflitos de personagens? O autor define conflito como a diferença entre o que o personagem quer e o que ele consegue. O conflito pode ser externo (quando vem de uma fonte externa ao personagem, como outro personagem, a sociedade, a natureza, etc.) ou interno (quando vem de dentro do próprio personagem, como seus sentimentos, pensamentos, valores, etc.). O conflito pode ser também entre personagens (quando há uma disputa ou um desacordo entre eles) ou entre grupos de personagens (quando há uma rivalidade ou uma guerra entre eles).

O autor sugere que se crie conflitos de forma orgânica e coerente com os personagens e a história. Para isso, é preciso conhecer bem os personagens e suas motivações e colocá-los em situações que testem os seus limites e revelem os seus conflitos. David Corbett também recomenda que se varie o tipo, a intensidade e a frequência dos conflitos, para manter o interesse e a surpresa do leitor ou do espectador.

O que Mestre Robert diz a respeito?

Já Robert McKee, renomado professor e consultor de roteiro, autor do livro Story, que é considerado uma referência na arte de contar histórias, os conflitos de personagens são essenciais para criar uma narrativa envolvente e significativa. Ele define o conflito como a diferença entre a expectativa e o resultado, ou seja, o que o personagem quer e o que ele consegue. McKee ensina que existem quatro tipos de conflitos: interno, interpessoal, social e cósmico.

  • O conflito interno é aquele que ocorre dentro da mente e do coração do personagem, entre seus valores, desejos, medos e crenças.
  • O conflito interpessoal é aquele que ocorre entre o personagem e outras pessoas, como amigos, familiares, inimigos ou amantes.
  • O conflito social é aquele que ocorre entre o personagem e as forças da sociedade, como leis, costumes, instituições ou grupos.
  • O conflito cósmico é aquele que ocorre entre o personagem e as forças da natureza, do destino ou de Deus.

McKee ensina que para construir os conflitos de personagens, é preciso definir claramente o objetivo do personagem, os obstáculos que ele enfrenta e as consequências que ele sofre. Além disso, é preciso variar os tipos e os níveis de conflitos ao longo da história, para manter o interesse e a tensão do público.

Arcos

Os arcos são as mudanças que os personagens sofrem ao longo da história, como resultado dos conflitos que enfrentam. Eles podem ser positivos (o personagem evolui, cresce ou aprende algo), negativos (o personagem regride, piora ou perde algo) ou neutros (o personagem não muda ou muda pouco). Os arcos devem ser verossímeis e graduais, e devem refletir as escolhas e as consequências que os personagens vivenciam, e também devem estar alinhados com o tom e a mensagem da obra.

O livro “Creating Character Arcs” de K.M. Weiland é uma obra de referência para escritores que querem criar personagens tridimensionais e com uma evolução emocional ao longo da história. Neste livro, a autora apresenta as principais técnicas para construir arcos de personagem, que são as mudanças que o protagonista sofre ao enfrentar os conflitos e os desafios da trama.

Segundo Weiland, existem três tipos básicos de arcos de personagem: o arco positivo, o arco negativo e o arco neutro. Cada um deles tem suas próprias características e estruturas, que devem ser levadas em conta na hora de planejar e escrever a história.

O arco positivo é aquele em que o personagem supera uma crença falsa ou limitante que o impedia de alcançar seu potencial ou sua felicidade. Ele passa por um processo de transformação interna que o leva a uma nova compreensão de si mesmo e do mundo.

Um exemplo clássico de arco positivo é o de Ebenezer Scrooge, o protagonista do conto “Um Conto de Natal” de Charles Dickens. Scrooge é um homem avarento e egoísta que despreza o espírito natalino e trata mal as pessoas ao seu redor. Porém, na véspera de Natal, ele recebe a visita de três fantasmas que o fazem revisitar seu passado, seu presente e seu futuro. Essas experiências o levam a perceber o quanto ele desperdiçou sua vida e o quanto ele pode mudar para se tornar uma pessoa melhor. No final da história, Scrooge se arrepende de seus erros e se torna um homem generoso e bondoso.

O arco negativo é aquele em que o personagem se afasta de uma crença verdadeira ou positiva que o guiava ou sustentava. Ele passa por um processo de deterioração interna que o leva a uma nova distorção de si mesmo e do mundo.

Um exemplo famoso de arco negativo é o de Anakin Skywalker, o protagonista da saga “Star Wars”. Anakin é um jovem talentoso e corajoso que sonha em se tornar um cavaleiro Jedi e defender a paz na galáxia. Porém, ao longo dos filmes, ele é seduzido pelo lado sombrio da Força, que explora seus medos, suas inseguranças e seus desejos proibidos. Essas influências o levam a trair seus amigos, matar inocentes e se tornar um tirano cruel conhecido como Darth Vader.

O arco neutro é aquele em que o personagem não muda significativamente sua crença ou sua personalidade ao longo da história. Ele mantém sua essência intacta diante das adversidades e das tentações.

Um exemplo notável de arco neutro é o de James Bond, o protagonista da série de filmes homônima. Bond é um agente secreto britânico que vive aventuras pelo mundo, enfrentando vilões e conquistando mulheres. Porém, ele não passa por uma mudança profunda em sua forma de pensar ou agir. Ele continua sendo um homem frio, calculista e sedutor, que cumpre sua missão sem se deixar abalar pelos acontecimentos.

Variações de tipos de arcos

Esses são os três tipos principais de arcos de personagem descritos por Weiland em seu livro. É claro que existem variações e nuances dentro de cada tipo, mas essa é uma forma simples e eficaz de entender como os personagens evoluem nas histórias. Ao aplicar essas técnicas na prática, nós, escritores, podemos criar personagens mais complexos, interessantes e envolventes para nossos leitores.

No já mencionado “The Art of Character: Creating Memorable Characters for Fiction, Film, and TV” de David Corbett, o autor apresenta outros quatro tipos básicos de arco dramático: positivo (o personagem supera um defeito ou uma limitação), negativo (o personagem sucumbe a um defeito ou uma limitação), neutro (o personagem permanece igual ou indiferente) e irônico (o personagem muda de forma inesperada ou contraditória).

Há muito o que explorar e variar nos arcos da trama de vida de seus personagens.

Voz

A voz é a forma como os personagens se expressam por meio da linguagem verbal ou não verbal. Ela revela aspectos da sua personalidade, do seu estado de espírito, do seu nível de educação, do seu contexto cultural, etc. A voz deve ser distinta e adequada para cada personagem, e deve variar de acordo com a situação e o interlocutor. A voz também deve ser coerente com a perspectiva narrativa escolhida pelo escritor (primeira pessoa, terceira pessoa limitada ou onisciente).

No livro “Creating Unforgettable Characters” de Linda Seger, a autora apresenta diversas técnicas para desenvolver aspectos como a personalidade, a aparência, o passado, os objetivos, os conflitos e as relações dos personagens.

Uma das técnicas mais interessantes que o livro aborda é a do desenvolvimento da Voz dos personagens, ela revela a essência do personagem, o seu modo de ver o mundo, os seus valores, os seus medos e os seus sonhos. A voz dos personagens é um dos elementos mais importantes para dar vida e credibilidade aos personagens, é a forma como o personagem se expressa, tanto verbalmente quanto não verbalmente, revelando sua personalidade, seu humor, seu ponto de vista, sua história e seus sentimentos.

Uma voz única!

Para criar uma Voz única e autêntica para cada personagem, Linda Seger sugere:

  • Observar pessoas reais e anotar as suas características de fala, como o vocabulário, o sotaque, o ritmo, as pausas, as gírias, as expressões idiomáticas, etc.;
  • Fazer exercícios de escrita criativa, como escrever diálogos entre personagens diferentes, escrever monólogos internos dos personagens, escrever cartas ou e-mails dos personagens para outras pessoas;
  • Ler em voz alta os textos escritos e verificar se a Voz dos personagens soa natural, coerente e distinta;
  • Revisar e editar os textos escritos, eliminando as palavras desnecessárias, os clichês, as repetições e as inconsistências na Voz dos personagens.

Ela apresenta quatro técnicas para desenvolver a voz dos personagens:

  1. A escolha das palavras. Cada personagem deve ter um vocabulário próprio, que reflita sua origem, sua educação, sua profissão, seu nível cultural e sua idade. As palavras também devem ser coerentes com o gênero, o tom e o estilo da história;
  2. A construção das frases. Cada personagem deve ter um ritmo, uma cadência e uma estrutura de frases que sejam distintas e adequadas à sua personalidade. As frases também devem variar de acordo com a situação, o humor e a intenção do personagem;
  3. Uso dos recursos sonoros. Cada personagem deve ter uma sonoridade própria, que seja marcante e harmoniosa. Os recursos sonoros incluem a aliteração, a assonância, a rima, a onomatopeia e o eco;
  4. A criação de bordões. Cada personagem deve ter uma ou mais frases ou expressões que sejam características e que se repitam ao longo da história. Os bordões devem ser originais, divertidos ou significativos para o personagem e para a trama.

Técnicas de Robert McKee para personagens

Vou retomar Robert McKee, devido ao impacto do trabalho dele em meu modo do compreender a narrativa e sua importância para quem quer contar histórias… ou melhor, estórias. McKee também sintetiza tudo o que vimos até aqui. Vou mostrar a visão do cara seguindo esses tópicos, me acompanhe, por favor:

  • O que é um personagem e qual sua função na história;
  • Como definir a essência, a dimensão e a transformação do personagem;
  • Como criar o arco dramático do personagem;
  • Como usar o contraste, o conflito e a coerência para dar vida ao personagem;
  • Como evitar os clichês e os estereótipos na criação de personagens;
  • O diálogo como formador do personagem.

O que é um personagem e qual sua função na história

Segundo McKee, um personagem é “uma vontade com uma consciência”. Ou seja, é alguém que tem um objetivo, uma motivação e uma personalidade que o guiam em suas ações e reações ao longo da história. O personagem é o elemento central da narrativa, pois é através dele que o leitor se envolve emocionalmente com a trama.

A função do personagem na história é gerar ação. McKee afirma que “a verdadeira caracterização acontece quando o escritor faz o personagem agir sob pressão”. Isso significa que o personagem deve enfrentar obstáculos, dilemas e antagonistas que o desafiem a mostrar quem ele realmente é e o que ele realmente quer.

Para criar um personagem que gere ação, é preciso definir três aspectos fundamentais: sua essência, sua dimensão e sua transformação.

Como definir a essência, a dimensão e a transformação do personagem

A essência do personagem é o seu núcleo, o seu traço mais profundo e imutável. É aquilo que define sua identidade, seus valores e sua visão de mundo. A essência do personagem pode ser expressa por uma palavra ou uma frase que sintetize sua natureza.

Por exemplo, a essência do personagem Harry Potter pode ser expressa pela palavra “corajoso”. A essência do personagem Sherlock Holmes pode ser expressa pela frase “o detetive mais inteligente do mundo”.

A dimensão do personagem é o seu contraste, o seu conflito interno. É aquilo que torna o personagem complexo, ambíguo e humano. A dimensão do personagem pode ser expressa por uma contradição entre sua essência e sua aparência, entre seu desejo e sua necessidade, entre seu comportamento e sua moral.

Por exemplo, a dimensão do personagem Harry Potter pode ser expressa pela contradição entre sua coragem e seu medo de enfrentar Voldemort. A dimensão do personagem Sherlock Holmes pode ser expressa pela contradição entre sua inteligência e sua arrogância.

A transformação do personagem é o seu arco dramático, o seu crescimento. É aquilo que mostra como o personagem muda ao longo da história, como ele supera seus conflitos internos e externos e como ele aprende algo sobre si mesmo e sobre o mundo. A transformação do personagem pode ser expressa por uma mudança em sua essência, em sua dimensão ou em ambas.

Por exemplo, a transformação do personagem Harry Potter pode ser expressa pela mudança em sua essência: de corajoso para heroico. A transformação do personagem Sherlock Holmes pode ser expressa pela mudança em sua dimensão: de arrogante para humilde.

Como criar o arco dramático do personagem?

O arco dramático do personagem, lembre, é a estrutura que mostra como ele se desenvolve na história, passando por diferentes estágios. Segundo McKee, existem cinco estágios principais:

  1. A exposição: é o momento em que o leitor conhece o personagem, sua situação inicial, seu objetivo e seu conflito;
  2. A progressão: é o momento em que o personagem enfrenta os obstáculos que surgem em seu caminho, aumentando a tensão e o desafio;
  3. A crise: é o momento em que o personagem chega ao ponto máximo de conflito, tendo que tomar uma decisão difícil e irreversível, que define seu destino;
  4. A clímax: é o momento em que o personagem executa sua decisão, enfrentando as consequências de sua escolha, para o bem ou para o mal;
  5. A resolução: é o momento em que o personagem mostra como ficou após a clímax, revelando sua transformação final.

Como usar o contraste, o conflito e a coerência para dar vida ao personagem?

Para criar um personagem vivo e interessante, McKee sugere três elementos essenciais: o contraste, o conflito e a coerência.

O contraste é a diferença entre o que o personagem diz e o que ele faz, entre o que ele parece ser e o que ele realmente é, entre o que ele quer e o que ele precisa. O contraste cria surpresa, humor, ironia e ambiguidade no personagem, tornando-o mais humano e complexo.

O conflito é a força que move o personagem na história, colocando-o em situações de tensão, dilema, risco e mudança. O conflito revela a verdadeira personalidade do personagem, testando seus valores, suas crenças e suas emoções.

A coerência é a consistência entre as ações do personagem e sua essência, sua dimensão e sua transformação. A coerência cria credibilidade, lógica e verossimilhança no personagem, fazendo com que o leitor acredite nele e se identifique com ele.

Como evitar os clichês e os estereótipos na criação de personagens?

Um clichê é uma ideia ou expressão que se tornou banalizada pelo uso excessivo. Um estereótipo é uma imagem simplificada e generalizada de um grupo ou categoria de pessoas. Ambos são prejudiciais para a criação de personagens, pois reduzem sua originalidade, sua profundidade e sua relevância.

Para evitar os clichês e os estereótipos na criação de personagens, McKee recomenda algumas estratégias:

  • Pesquisar sobre o tema, o cenário e o público-alvo da história, buscando informações precisas, atualizadas e diversificadas;
  • Observar as pessoas reais que se assemelham ao perfil do personagem, notando seus comportamentos, seus gestos, seus modos de falar e suas particularidades;
  • Subverter as expectativas do leitor, criando personagens que fogem do óbvio ou do previsível, que têm características inusitadas ou contraditórias;
  • Dar voz ao personagem, deixando-o expressar seus pensamentos, seus sentimentos, seus desejos e suas opiniões, mostrando sua individualidade e sua subjetividade;
  • Desenvolver o personagem ao longo da história, mostrando como ele muda ou se mantém fiel a si mesmo diante dos conflitos que enfrenta.

O diálogo como formador do personagem

Segundo McKee, um diálogo dramático é uma fala dita por um personagem inserido em um contexto dramático e que precisa falar (ou omitir) o que for preciso para conseguir o que quer. Um diálogo dramático não é uma conversa casual ou uma exposição de informações, mas uma ação verbal que tem um objetivo e um conflito.

Um diálogo dramático deve seguir os mesmos princípios de uma cena dramática, ou seja, deve ter:

  • Um protagonista que quer algo e tem uma motivação para falar;
  • Um antagonista que se opõe ao protagonista e tem uma motivação para falar;
  • Um conflito entre as vontades e as motivações dos personagens;
  • Uma virada que muda o valor da cena de positivo para negativo ou vice-versa.

O diálogo é uma das principais ferramentas para a construção dos personagens, pois através dele podemos mostrar:

  • A caracterização dos personagens: é o conjunto de aspectos externos e superficiais dos personagens, como idade, aparência, profissão, educação, etc. A caracterização pode ser mostrada através do vocabulário, do sotaque, do estilo, do humor, etc. Ela ajuda a criar uma imagem e uma identidade para os personagens;
  • O verdadeiro personagem dos personagens: é a essência interna e profunda dos personagens, que revela suas qualidades, defeitos, valores, crenças, desejos, medos, etc. O verdadeiro personagem é mostrado através das escolhas que os personagens fazem sob pressão, que demonstram seu caráter e sua personalidade. O verdadeiro personagem ajuda a criar uma empatia e uma complexidade para os personagens;
  • O arco de personagem dos personagens: a mudança interna que os personagens sofrem ao longo da história, para melhor ou para pior. O arco de personagem é mostrado através das transformações que os personagens vivem em suas atitudes, opiniões, sentimentos, etc. Ele ajuda a criar uma evolução e uma coerência para os personagens.

Claro que o senhor McKee tem muito mais a nos dizer, aqui expus somente um resumo prático.

Mas que tal ter seu personagem bem ali, na palma de suas mãos? É para isso que servem as fichas.

Como construir a ficha de personagens

Uma ferramenta que pode ajudar no fascinante processo de criação de personagens é a ficha de personagens. Ela consiste em um documento que reúne as principais informações sobre cada personagem, como nome, idade, aparência, personalidade, história, motivações, conflitos, relações, etc. A ficha de personagens serve como um guia para quem cria conhecer melhor seus personagens e mantê-los consistentes ao longo da obra que conta suas histórias.

Não há uma regra única para fazer uma ficha de personagens. Cada autora ou autor pode adaptá-la de acordo com suas necessidades e preferências. No entanto, há alguns elementos básicos que podem compor uma ficha de personagens, e vamos incluir neles as técnicas que estudamos até aqui:

  • Nome: o nome do personagem pode revelar aspectos sobre sua origem, cultura, personalidade ou significado na história. É importante escolher um nome que combine com o personagem e que seja fácil de lembrar e pronunciar pelo leitor;
  • Arquétipo principal: ver acima em “Arquétipo“;
  • Arquétipo secundário: ver acima em “Arquétipo“;
  • Arquétipo sombra: ver acima em “Arquétipo“;
  • A necessidade: ver acima em “Motivações“;
  • O desejo: ver acima em “Motivações“;
  • A fraqueza: ver acima em “Motivações“;
  • O segredo: ver acima em “Motivações“;
  • Os conflitos: ver acima em “Conflitos” e em “O que Mestre Robert diz a respeito?“, os conflitos “interno”, “interpessoal”, “social” e “cósmico”;
  • O arco: ver acima em “Arcos“;
  • A voz: ver acima em “Voz” e em “Uma voz única!“;
  • Idade: a idade do personagem pode influenciar sua maturidade, experiência, comportamento e perspectiva de vida. É importante definir uma idade adequada para o papel que o personagem desempenha na história e para o gênero e o público-alvo da obra;
  • Aparência: a aparência do personagem pode incluir características físicas como altura, peso, cor dos olhos, cabelo, pele, etc., bem como o estilo de se vestir e acessórios que usa. A aparência do personagem pode refletir sua personalidade, humor, estado de saúde, classe social, profissão ou até mesmo ter alguma função narrativa ou simbólica na história;
  • Personalidade: a personalidade do personagem é o conjunto de traços psicológicos que definem seu modo de ser, pensar, sentir e agir. A personalidade do personagem pode ser descrita por adjetivos ou por categorias como extrovertido/introvertido, racional/emocional, otimista/pessimista, etc. A personalidade do personagem pode determinar suas atitudes, reações e escolhas na história;
  • História: a história do personagem é o conjunto de fatos e acontecimentos que moldaram sua vida até o momento presente da narrativa. A história do personagem pode incluir aspectos como família, infância, educação, traumas, conquistas, perdas, amores, inimigos, etc. A história do personagem pode explicar sua personalidade, motivações e conflitos na história;
  • Relações: as relações do personagem são os vínculos que ele estabelece com outros personagens na história. As relações do personagem podem ser de amizade, amor, ódio, rivalidade, lealdade, dependência, etc. As relações do personagem podem afetar sua personalidade, motivações e objetivos na história.

Quem não conhece Milena Ramirez?

Para ilustrar como fazer uma ficha, vou utilizar como exemplo uma personagem protagonista de minha série literária de ficção científica Código 7 Infinidade, eu a conheço desde 1998, quando criei sua primeira versão, o que facilita o trabalho aqui. Ela se chama Milena e este é um desenho que fiz dela, para ilustrar uma cena de um dos livros da série (sua ficha pode conter um desenho ou mesmo a foto de uma/um artista que você ache que tem a cara de seu personagem, isso não incorre em direitos autorais, se você não usar/divulgar a imagem para fins comercias, apenas como uma referência para você visualizar sua criatura):

Arte do autor Wagner RMS mostrando a personagem Milena Ramirez Martins, mulher adulta, morena e de olhos azuis, usando um traje espacial futurista sem o capacete, o que deixa seu rosto simpático e sorridente à mostra, mas ela está contra um fundo obscuro e um tanto perturbador.
  • Nome: Milena Ramirez Martins.
  • Arquétipo principal: “a cuidadora” – Milena tem grande senso de compaixão e generosidade, ajuda e protege todos os outros personagens, praticamente sem considerar os riscos para si mesma;
  • Arquétipo secundário: “a sombra” – Milena possui um lado sombrio, o qual ela tem horror que seja visto pelos outros, devido ao seu dom da “voz de comando” (a capacidade psíquica de dar ordens e ser obedecida pelas outras pessoas, elas queiram ou não) e uma natureza que sente rancor ao ser contrariada, ela já tirou uma vida ao dar uma de suas ordens e tem pavor de fazer isso novamente, então ela se tornou o extremo oposto de seus instintos básicos, se sacrificando sempre que necessário pelos outros, buscando ser a mais gentil e amiga até com quem é mau com ela, em uma tentativa de redimir seus pecados;
  • Arquétipo sombra: “a governante” – ela tem a natureza profunda de quem lidera, o impulso prazeroso de ter poder e comandar sem ser limitada por ninguém, com impulsos mais profundos (contra os quais ela luta com todo o empenho e medo) de deleite com a tirania;
  • A necessidade (Motivação): necessita redenção pelo crime que cometeu ao dar uma ordem relativamente banal a uma pessoa que a irritou (“desapareça!”) e devido ao seu dom psíquico da Voz de Comando, ter causado a morte dessa pessoa. Milena busca essa redenção constantemente se sacrificando para proteger todos a sua volta;
  • O desejo (Motivação): ela precisa sobreviver e manter vivos todos os que são tragados junto com ela para dentro da agência secreta C7i, enquanto enfrenta todas as terríveis missões dessa agência, enfrentando forças alienígenas terríveis e naturalmente destrutivas para a civilização e vida humanas, buscando, de algum modo, uma saída para voltar a viver uma vida normal;
  • A fraqueza (Motivação): não consegue lidar com o sentimento de culpa, chegando a ser manipulável se este sentimento for incentivado por quem deseja manipular Milena, enquanto ela não se perdoa, ela depende da sorte e de suas extraordinárias capacidades atléticas e de luta para se manter viva, já que busca constantemente uma redenção inalcançável por meio de arriscar-se constantemente pelos outros;
  • O segredo (Motivação): ela mantem em segredo o fato de ter usado inadvertidamente (e por impulso tirânico inconsciente) ordenado que uma pessoa se suicidasse, e essa pessoa foi seu primeiro amor, um rapaz que ao contrariá-la e, portanto, irritá-la, recebeu dela a ordem para sumir consigo mesmo e, forçado pelo dom psíquico de Milena, se atirou em um viveiro de tubarões nas ilhas havaianas;
  • Os conflitos: Milena enfrenta como conflito interno o medo de ser capaz de salvar quem precisa ser protegido por ela (todas a sua volta) e com isso acreditar que isso comprovar que Milena é, na verdade, um monstro destruidor de vidas. Seu conflito interpessoal é sentir que seu primeiro parceiro ao ser abduzida para a Agência C7, o bioquímico Guilherme Borges, precisa da proteção dela, pois mesmo sendo muito inteligência é frágil fisicamente, mas ao mesmo tempo se magoar e irritar com as constantes tentativas dele de manipular Milena de forma egoísta. Milena enfrenta desafios parecidos com outros membros da Agência e com a Inteligência Artificial que gerencia a Agência, conhecida como ORWELL, do qual ela sabe que sua vida depende, e para quem Milena sabe que ela é um recursos descartável como qualquer outro agente. O conflito social dela se manifesta em sua relação difícil com as regras tirânicas da Agência, da obrigação de se esconder de seus amigos e familiares de antes de ser abduzida para dentro da Agência, pois quando isso acontece a pessoa abduzida deve ser dada como morta pelo resto das pessoas, sob pena de se um amigo ou familiar reconhecê-la, essa pessoa ser morta pela Agência para que o segredo de sua existência se mantenha. O conflito cósmico enfrentado por Milena tem a ver com suas missões que enfrentam forças cósmicas e alienígenas, poderes não humanos colossais e, por suas próprias naturezas, anti-humanas, encarando também a insignificância humana diante da vastidão do Universo e as outras civilizações. Toda essa tensão se traduz em muitas horas livres dedicadas a exercícios e treinos marciais e, com o grande desgaste de energia dessas atividades, vem uma fome constante;
  • O arco: como a série a qual Milena pertence é longa, ela deve passar por mais de um arco de personagem, enfrentando a derrota de sua necessidade de redenção em um arco negativo quando seus impulsos tirânicos são expostos pela indiferença do Universo quando as pessoas que precisam ser protegidas, ao perder constantemente protegidos e encarar essa indiferença da Natureza do Cosmos, ela se torna o pior de si e será consumida pelo seu dom psíquico da Voz de Comando, usando-o para tentar impor ordem e significado ao Universo. Em uma segundo conjunto de histórias, quando a humanidade se expande além de suas fronteiras mais longínquas e enfim tem que enfrentar seus terrores cósmicos, Milena vai viver um arco positivo encontrando uma nova compreensão de si mesma e do mundo, perdoando-se e se tornado a melhor de si;
  • A voz: Comedida e precisa nos seus gestuais, com trejeitos de bailarina, a campeã de artes marciais e engenheira Milena Ramirez Martins tem uma bela voz, afinada e musical, em agradável tom entre o de menina e o de mulher, e normalmente fala em volume adequado, nem alto, nem baixo, e com educação e gentileza, a dicção precisa e calma procura se fazer entender expondo suas ideias e pensamentos com palavras não violentas e em frases claras e objetivas, mas, por vezes, quando as pressões fazem seu eu mais instintivo e agressivo se ressentir do que ocorre, é possível vê-la tencionar e mandíbula por uma fração de segundo, ou surgir uma “chama” tensa, voluntariosa e breve em seu olhar, reações que geralmente ela cala com alguma técnica meditativa, respirando fundo, pausando, fechando os olhos brevemente, ou forçando-se mesmo a retomar o tom gentil. Nas raras vezes em que perde o rígido controle sobre sua personalidade mais subconsciente e tirana, sua voz doce fica dura e suas frases são ferinas, seguidas de um recolhimento em si mesma, ficando ressentida consigo;
  • Idade: 37 anos (no início da trama de C7i lembrando que a longevidade e o envelhecimento desacelerado são comuns neste tempo futuro de C7i, então Milena está longe da meia idade, que beira os 50/60 anos ou mais, aparentando na verdade cerca de 22 a 25 anos);
  • Aparência: pele bastante morena, cabelos longos, muito lisos, brilhantes e negros, olhos radiantes azuis, rosto delicado aparentando ser mais jovem do que é na verdade, 1,77 m de altura, pesando cerca de 68 quilos, corpo atlético, esbelto e curvilíneo, esculpido pelo treino marcial constante e o surfe de sua juventude. Milena é bastante forte, com grande potência muscular, sem, no entanto, exibir musculatura muito hipertrofiada (depois que se tornou Agente de C7i, recursos adicionais foram agregados ao seu corpo, aumentado notavelmente suas capacidade naturais. Por exemplo, ela é quase duas vezes mais forte que uma mulher comum com as mesmas características físicas e treinos que ela). Em uma época em que quase todas as pessoas se alteram geneticamente para atingir o máximo de suas belezas características, Milena é de uma beleza praticamente natural e rara. Em seu pulso esquerdo há sempre uma fina pulseira que é o bracelete de dados, um computador com inteligência artificial não consciente que todo Agente Diplomata da Agência C7i usa, e que na verdade simula um bracelete de dados que muitos “civis” usam também, no mundo fora da Agência, mas no caso dos Agentes, seus braceletes são imensamente mais potentes e sofisticados. Esses braceletes fazem com que os Agentes possam ser monitorados e castigados ou até mortos pela Agência, através da IA ORWELL, que lidera missões e comanda recursos;
  • Personalidade: inteligente, positiva e corajosa, gentil, atenciosa e empática, dedicada aos seus objetivos e aos outros e a fazer o bem e o justo. Ela é, também, contida, aparentando ingenuidade, e muito autocrítica;
  • História: a engenheira de tecnologias robóticas Milena Ramirez nasceu em meados de século XXII, quando a Terra e sua Humanidade atingiam sua era de ouro tecnológica. Ela sempre foi muito apegada a sua família. Sua Mãe, de quem herdou a beleza delicada e a pele dourada, é uma brasileira (por sua vez filha de um brasileiro e uma havaiana), escritora e bailarina. O Pai de Milena é um espanhol de ascendência árabe, engenheiro civil, de quem a mulher herdou os faiscantes olhos azuis e a altura. Ela tem um irmão, Guilherme Ramirez Martins, que algumas pessoas creem ser gêmeo dela, de tão parecidos, e um amigo de infância tão próximo da família que ela o considera seu irmão de criação, chamado Christian Montez, por quem ela nutriu uma breve paixão platônica na adolescência (ambos os rapazes são mais velhos, Milena é a caçula). Entre o Havaí e o Brasil, os irmãos cresceram felizes juntos, estudando, amadurecendo, criando vínculos e histórias. Crescida, Milena formou-se em engenharia e se tornou integrante da divisão de patrulhamento robótico do estado do Rio de Janeiro, Brasil (seus irmãos se tornaram policiais também, ambos investigadores também no Rio), onde conheceu um de seus melhores amigos, o robô DANEL. Milena era servidora pública condecorada e ativa. Durante uma investigação, ela foi cooptada e abduzida de forma violenta, o que forjou sua morte e a tornou agente 100% dedicada, e assim ela foi engolida pela Agência C7i e arrancada de sua vida para ser convertida em uma Agente Diplomata. Dentro da Agência ela foi confrontada com uma realidade diferente da civilização humana quase utópica em que cresceu. No tempo dela a humanidade vive sua era de ouro, com a tecnologia e as evoluções culturais transformando o mundo numa quase utopia, enquanto a Agência cuida para que a nossa extinção (prestes a acontecer quando os humanos, avançando rumo às estrelas, colidirem com forças alienígenas por natureza anti-humanas) seja adiada o máximo possível, enquanto tenta encontrar um meio de virar este jogo. Para isso, a Agência C7i conta com especialistas recrutados entre as mentes mais brilhantes da humanidade, cujas mortes são forjadas para que eles passem a servir em tempo integral como os Agentes Diplomatas (o nome do cargo, alguns dizem, é uma ironia, já que não raro os contatos resultam em combates encarniçados) de C7i, que são a linha de frente na exploração do espaço mais distante e sombrio, e para enfrentar as forças aterradoras que vêm de lá. Milena, obrigada a existir nas sombras da sociedade humana e a ser uma dessas agentes, passa a viver a uma missão de cada vez, tentando sobreviver aos terrores que enfrenta, salvando seus colegas de luta, que são outras pessoas sequestradas de suas vidas iguais à Milena, e salvando a humanidade a cada vez, sem ser reconhecida jamais por seus sacrifícios;
  • Relações: amizades – Milena tem muitos amigos e familiares dos quais tem que se esconder fora da Agência C7i, mas depois que estrou para a entidade secreta, ela passou a tratar com cordialidade e coleguismo todos que encontrasse, mas aquele que ela pode chamar de seu principal amigo conhecido dentro da Agência é o bioquímico e também Agente Guilherme Borges. Inicialmente a amizade dos dois foi, para ela, pelo simples fato de ela estar desesperada por ter perdido sua vida e encontrar, como seu parceiro designado de missões um sujeito com o mesmo nome de um de seus irmãos, mas com o tempo, mesmo sendo Borges um sujeito egoísta e manipulador, surgiu entre eles uma conexão de amparo mútuo que, mesmo não sendo a mais saudável das amizades, ainda assim é mais profunda que o coleguismo. Rivalidades – alguns diretores da Agência, como o antiético e corrupto Proschenko, são desafetos de Milena, mas para ela seu maior antagonista, a ser enfrentado com a máxima sutileza e cuidados, é a Inteligência Artificial ORWELL, que comanda as missões e os Agentes e tem poder de vida ou morte sobre eles. Milena, em sua busca por redenção, é a defensora máxima da vida, enquanto ORWELL é a personificação da morte. Lealdades – DANEL, o robô policial, foi parceiro de Milena na segurança pública do estado do Rio de Janeiro, e, algum tempo depois de Milena, o robô também foi abduzido pela Agência, se tornando, junto com Guilherme Borges, as pessoas por quem Milena Ramirez mais sente lealdade, sendo que ela confia mais em DANEL. Dependências – A Dra. Jussara, médica chefe e principal arquiteta de sistemas da Agência, é a pessoa dentro de C7i de quem Milena sente mais depender, pois acredita que, de algum modo, Jussara tem alguma, mesmo que mínima, influência sobre a sombra mortal de ORWELL, e no decorrer da trama Milena descobrirá que isso tem fundamento, mas não da maneira que ela pensa.

É isso. Adicione mais e mais detalhes, se quiser e se for necessário, e mantenha a ficha de seus personagens à mão. Consulte-a sempre que precisar manter a coerência de sua personagem diante dos conflitos que ela precisará enfrentar em toda a trama da sua obra.

Construir Personagens é…

Uma arte que exige criatividade, sensibilidade e técnica. É um processo contínuo e dinâmico, que envolve experimentação e refinamento, para que os personagens sejam tridimensionais, complexos e humanos, capazes de envolver e emocionar o leitor, que muitas vezes precisa se reconhecer neles. Cada personagem é único e deve ser tratado como tal.

Muito bom também que nós, autoras e autores, estejamos sempre atentos às reações dos leitores e dispostos a fazer ajustes, com base nessas reações, para tornar nossos personagens ainda mais envolventes.

Muito importante acrescentar uma informação que a excelente autora e amiga, Mestra Laura Freignham me lembrou: segundo a sua xará Laura Bacellar, que podemos chamar de livróloga de tão conhecedora que ela é desse nosso querido livro, obras ganhadoras de prêmios e publicadas pelas grandes editoras são exatamente as que apresentam bom desenvolvimento de personagens e cujas tramas se desenrolam à partir deste desenvolvimento. Personagens bem estruturados, com arcos bem construídos, resultam em obras com maior potencial de sucesso.

Mestra Laura Freignham me fez a gentileza de lembrar também que, não raro, os autores das grandes obras baseiam seus personagens em toda ou em parte de suas próprias vivências, ou nas vidas de pessoas de cujas as histórias esses grandes autores foram testemunhas. Isso dá tremenda profundidade e realismo ao ser ficcional.

Por fim, na prática, quem cria precisa ter um profundo grau de intimidade com seu personagem, e essa ligação pessoal torna a criatura ficcional quase um alter ego nosso. Bom, para fortalecer esse laço, fica aqui minha última dica: considere se cercar de amigas e amigos, criativos como você, e jogar umas boas partidas de RPG, serão as aulas mais imersivas possíveis que você vai ter sobre como é estar na pele de seu personagem.

Por Wagner RMS.

Técnicas para Criação de Personagens
Espalhe Nosso Amor pela Leitura!

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