O Eco na Máquina Fantasma

Sofia Jadore origem em C7i.

Ou sobre como ser abduzido por uma agência secreta

Ano: 2240

Localização Primária: Laboratório de Exo-Arqueologia Virtual, no Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas. Universidade de São Paulo, Terra.

Localização Secundária: Setor 3B-Gama, Planície de Elysium, Marte.

O silêncio de Marte não era vazio. Era uma pressão. Uma ausência de som tão absoluta que se tornava uma presença física, um peso contra os sensores de áudio do simulacro. A quilômetros de distância, imersa no gel VR-link do tanque de interface neural para telepresença em São Paulo, Sofia Jadore sentia essa pressão em seus próprios ossos. O feedback háptico era perfeito, uma sinfonia de dados traduzida em sensação. Adaptadas para os nervos humanos, claro. O ar rarefeito e gelado, a areia fina soprada pelo vento e grudando nas juntas de metatitânio de seu avatar robótico humanoide (cuja pele holográfica exibia a perfeita aparência de sua piloto), o puxão gravitacional, um terço do que sua memória muscular esperava. Tudo era real. Mais real, às vezes, do que o mundo que ela deixou para trás, por enquanto. 

Até ela achava um excesso haver arqueólogos operando remotamente em todas as bases e assentamentos pelos outros planetas do Sistema Solar. Nunca houve outra civilização além da terrestre, esse era o consenso científico no século XXIII. Pelo menos Sofia e a maioria das pessoas pensavam assim. Mas era boa a sensação de visitar um mundo tão antigo e poeirento, sempre com alguma esperança de encontrar algo extraordinário.

Seu pai a ensinara a amar a poeira. Não a poeira doméstica, o detrito do tempo humano, mas a poeira dos mundos. O sedimento que guardava histórias.

— Cada grão, Sofia — ele dizia, apontando para um estrato de rocha no Deserto do Atacama —, é uma palavra em uma biblioteca que pegou fogo. Nosso trabalho é aprender a ler a fumaça.

Agora, ela lia a fumaça de um mundo inteiro, sabendo que não encontraria bibliotecas, mas com o espírito de uma exploradora sempre esperançosa. O VRPR-9, batizado de “Carcará” pela equipe brasileira, era a ferramenta mais sofisticada de telepresença inteligente já construída fora do circuito militar. Para Sofia, em seu último ano de graduação, pilotar o Carcará em exo-prospecção arqueológica era o auge de uma vida inteira de preparação. O sonho do pai, afiado pela disciplina da mãe.

Sua mãe não falava de bibliotecas em chamas. Falava de como o fogo começava. Ensinou-a a ler não a fumaça, mas a intenção por trás da faísca. Ensinou-a o centro de gravidade de um oponente, o ponto de fratura em um osso, a matemática fria de uma trajetória balística. Três maneiras de desarmar um homem com uma faca antes que ele completasse o primeiro arco do golpe. Como transformar o pânico em foco, a dor em informação. Treinamentos incessantes, brutais, que conflitavam com a paciência metódica exigida pela arqueologia.

— O mundo não é um museu, ma chérie — sua mãe dizia, com o sotaque francês lhe dando tom de elegante frieza. — É uma arena. Você reza para passar a vida inteira na arquibancada, mas treina para sobreviver no centro.

Naquele momento, na quietude de Elysium, a arena parecia distante. A missão era simples. Mas a intuição de Sofia vibrava com uma dissonância sutil. O sistema registrava um padrão de eco de sonar que desafiava a lógica geológica: linhas retas, ângulos de noventa graus. Uma rede complexa e enterrada. O software a classificava como interferência. Ruído.

Mas Sofia vira padrões assim antes. Em Giza. Em Göbekli Tepe. Eram as assinaturas de planejamento. As fundações de algo construído. Mas, ainda mais complexo.

Ela desviou o Carcará da rota. A cada passo, a anomalia se tornava mais nítida. Foi quando o primeiro corte de sinal aconteceu. Breve, violento. A conexão voltou, mas algo estava diferente. Um sussurro sub-harmônico no canal de áudio simbolizava um eco no sonar de penetração de solo. Talvez o extraordinário tão esperançosamente aguardado. Metal? Comportas? Não seria engenharia…humana. Estruturas complexas de metal. O eco na máquina fantasma.

Ignorando o arrepio, ela forçou os sensores do Carcará ao limite. Por uma fração de segundo, antes que o mundo virtual se estilhaçasse, a tela piscou com uma imagem impossível: contornos de edifícios, a sombra de uma cúpula colossal, a grade inconfundível de uma cidade morta. As fantasias antigas sobre civilizações marcianas poderiam, enfim, estar certas? A estrutura devia ser acessível por algum tubo de lava, se pudesse localizar exatamente…

Então, o corte. Não um soluço, mas uma guilhotina. O link neural foi seccionado com uma precisão cirúrgica. Em Marte a VRP do Carcará deveria levá-lo de volta à base, seria a ação padrão da IA. Na Terra, a mente de Sofia era um turbilhão. Ela não vira um fantasma. Vira uma tumba. E alguém, com um poder imenso, acabara de fechar a porta.

A morte e a morte de Sofia Jadore

Nos três dias seguintes, a vida acadêmica de Sofia se desintegrou. Lá em Marte o Carcará, na verdade, foi dado como perdido. Oficialmente, o incidente foi uma “cascata de falhas de hardware”. Seu acesso ao projeto VRP-Marte foi revogado. Seus relatórios, ignorados. Dr. Alves, antes um mentor, agora sugeria uma licença médica por “estresse de imersão”.

Ela sabia que era uma mentira. A precisão do corte, o “sinal fantasma” que agora ecoava em seus sonhos… aquilo não foi uma falha. Foi uma intervenção.

Começou sua própria investigação. Discreta, usando os terminais da biblioteca, criptografando suas buscas. Cruzou dados de antigas sondas orbitais, registros sísmicos públicos, tudo. Encontrou fragmentos. Um pulso de energia inexplicado na mesma área, vinte anos antes. Uma sonda sul-coreana que silenciou exatamente sobre aquelas coordenadas em 2098. Peças de um quebra-cabeça que formavam a imagem de um encobrimento.

Foi quando os homens de preto apareceram. Não literalmente. Eram mais sutis. Um técnico de manutenção que demorava demais perto de seu apartamento. Um carro sedan que parecia estar sempre a dois quarteirões de distância. Pequenas falhas em seus dispositivos, o microfone de seu comunicador ativando-se sozinho. Eram profissionais. Pacientes. Estavam mapeando sua vida, seus hábitos, suas vulnerabilidades. A lição de sua mãe ecoou em sua mente: Eles não atacam a fortaleza. Atacam a rotina que leva você até ela.

Ela precisava de um lugar fora da rotina. Um antigo galpão para materiais de arqueologia de papa nos arredores de Mogi das Cruzes. Fora da rede, analógico, esquecido. Seus velhos não estariam lá hoje.

Ela quebrou a rotina. Pegou o metrô na direção oposta, deixando seu celular para trás. Pagou um mototáxi com dinheiro vivo, coisa muito rara, demorou para achar um que aceitasse. Caminhou os últimos três quilômetros. O sol se punha quando ela alcançou o galpão de zinco, um fantasma anacrônico de ferrugem contra o verde da Serra do Itapety, onde todas as construções rurais já eram feitas de metamateriais auto-regenerativos. A própria casa principal, uns duzentos metros adiante naquele terreno parecia sempre nova em folha.

A armadilha estava pronta. A deles.

A equipe de limpeza – quatro operativos em trajes táticos cinza-escuro com finos braceletes de dados nos pulsos – desceu de um veículo aéreo elétrico e silencioso a meio quilômetro de distância.

— Alvo confirmado no ninho. Perímetro estabelecido. Protocolo de esterilização autorizado — disse o líder, a voz calma no comunicador interno. — Sem testemunhas. Sem vestígios.

Dentro do galpão, o cheiro de poeira e óleo de linhaça a acalmou. Ela não estava ali para se esconder. Estava ali para lutar. O galpão era a arena de sua mãe, disfarçada de museu de seu pai. Cada objeto era uma arma em potencial. Um cinzel de geólogo. Um martelo de chipping. Garrafas de produtos químicos para preservação. Uma velha besta de caça do século vinte e um que seu pai usava como decoração.

Sofi, então, ouviu o primeiro som. Cascalho sendo esmagado por uma bota sorrateira. Eles estavam se aproximando, tentando ser o mais silenciosos possível, dois pela frente, dois pelos fundos.

A Sofia arqueóloga desapareceu naquele instante. A filha de sua mãe assumiu o controle.

Enquanto Sofia se preparava para o confronto inevitável, um memória intrusa emergiu, nítida como o cheiro de terra molhada. Ela tinha catorze anos, o corpo dolorido, o rosto sujo de lama. Estavam em algum ponto da Mata Atlântica, três dias de um treinamento de sobrevivência que a levara ao limite. A chuva fina e fria encharcava tudo.

— Foi… foi na polícia que você aprendeu tudo isso? — perguntou a garota, a voz um fio, trêmula de exaustão.

Sua mãe, impecável mesmo sob a garoa, virou-se. Seus olhos, normalmente duros como pederneira, suavizaram por um instante.

— A maior parte. Sim. Força de elite. Eu sei que está cansada, ma chérie.

Ela se ajoelhou na lama, um gesto raro de ternura, e afastou uma mecha de cabelo do rosto da filha.

— Mas eu não quero que você passe pela dor que eu passei.

A pergunta saiu antes que a garota pudesse pensar.

— Que dor, maman?

O rosto da mãe se fechou. A vulnerabilidade desapareceu, substituída pela máscara de aço de sempre. Ela se levantou.

— Quando for adulta, eu prometo, nós conversaremos sobre isso.

A conversa nunca aconteceu. Mas a lição permaneceu. A dor era uma professora. E Sofia fora uma aluna dedicada.

O primeiro operativo a entrar pela porta dos fundos encontrou apenas sombras. Ele se moveu com fluidez, arma em punho. Sofia desceu do teto, silenciosa como a poeira. O cabo de aço de uma talha de motor enrolado em suas mãos. Antes que ele pudesse processar a anomalia em seu sensor de movimento, o cabo estava em volta de seu pescoço. Não houve luta. Apenas a aplicação fria da física, todo o seu peso no ponto exato de pressão sobre a artéria carótida e a traqueia. Um corpo caiu no chão sem um som.

O segundo operativo, na frente, viu a luz da lanterna de seu parceiro se apagar.

— Status, Delta-Dois? — ele sussurrou.

Apenas estática. Ele sinalizou para os outros, que avançaram.

Sofia já estava em movimento. Derrubou uma prateleira de metal pesada, criando uma barreira de ruído e caos. Rolou para baixo de uma mesa de trabalho, a besta de caça em suas mãos. Uma seta de fibra de carbono, afiada como um demônio, assobiou pela escuridão e encontrou a coxa do quarto operativo, perfurando o tecido balístico e se alojando no fêmur. Um grito de dor abafado.

Agora eram dois. O líder e Delta-Três. Eles se adaptaram. Lançaram um drone que mapeou o interior em infravermelho.

— Alvo localizado. Sob a mesa de trabalho central — informou o líder.

Sofia sorriu no escuro. Ela sabia que eles fariam isso. O drone mostrou sua assinatura de calor, mas não o que estava em suas mãos: duas garrafas de acetona e terebintina. Ela as arremessou contra um antigo gerador a diesel no canto. A propriedade tinha um reator de ponto quântico, claro, tudo era movido a RPQs, mas seu pai adorava manter o velho diesel funcionando.

— Fogo de cobertura! — ordenou o líder.

As balas perfuraram a mesa. Sofia não estava mais lá. Rastejou por uma vala de manutenção, saindo atrás deles. Com uma faísca de um isqueiro Zippo que pertenceu a seu papa, ela ateou fogo a um pano encharcado e o jogou na direção do gerador.

A explosão foi mais forte do que ela esperava. Os dois operativos foram jogados para longe. Um não se levantou mais. O líder, protegido por um pilar de concreto, ficou atordoado.

Sofia emergiu da fumaça, com um martelo de chipping em uma mão e um cinzel na outra. O líder levantou sua arma, lento demais. O martelo quebrou seu pulso. O cinzel encontrou a articulação desprotegida em seu pescoço. A matemática fria de sua mãe.

Ela ficou de pé, no meio da carnificina e do fogo, o corpo vibrando com uma adrenalina familiar. Ela sobreviveu.

Foi quando sentiu a picada aguda em seu pescoço. O mundo girou, escurecendo, se esvaindo. Um quinto membro. Um fantasma. Um atirador. Um plano de contingência. Sentia mais decepção do que raiva.

Fantasmas que se recusam a desaparecer

Ela caiu de joelhos, a visão escurecendo. A última coisa que viu foi um par de botas e uma voz, a mesma do comunicador.

— Impressionante — disse o homem. — Você não era um alvo e isso não foi uma limpeza. Pareceu mais uma entrevista de emprego.

Então, falando ao seu bracelete, o atirador disse:

— Alvo abatido, Orwell.

Gélida, a escuridão tomou Sofia.

Ela acordou em um quarto branco, impecavelmente limpo, vestindo um macacão cinza. Uma única porta.

A porta se abriu. Um homem de meia-idade, com um rosto que não revelava nada e olhos que pareciam ter visto o nascimento e a morte de estrelas, entrou.

— Sofia Jadore — ele disse. — Meu nome não é importante neste momento. O que importa é que você morreu há duas horas em um incêndio acidental em Mogi das Cruzes. Uma tragédia. Uma jovem acadêmica promissora com um futuro brilhante.

Ele fez uma pausa.

— A mulher que sobreviveu àquele incêndio, que neutralizou quatro dos meus melhores operativos usando ferramentas da idade da pedra e a lógica de um predador… essa mulher tem um futuro diferente. Nós forjamos sua morte porque seu talento é raro demais para ser desperdiçado. E perigoso demais para ser deixado sem supervisão.

Ele se aproximou.

— A cidade que você viu em Marte é real. É uma de muitas construções esquecidas por eras e por todo o Sistema Solar. As coisas que as destruíram ainda estão por aí. A C7i não é uma agência de exploração. Somos a linha de defesa. Uma bem fina. Os homens que você enfrentou eram da equipe Ômega. Parte da divisão de limpeza, que eu lidero. Nós apagamos vestígios. Silenciamos ecos. E, às vezes, recrutamos os fantasmas que se recusam a desaparecer. Seu caso, agora.

Ele estendeu a mão. Um convite.

— Sofia Jadore está morta. A questão agora é: o que você vai fazer com sua nova vida?

A jovem não desviou os olhos por um momento sequer enquanto o homem falava, mas, naquele instante, pensou por um instante e então apertou a mão dele e afirmou, com a força potencial de uma tempestade que incandesce o horizonte:

— Eu vou sobreviver.

Por Wagner RMS.

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O Eco na Máquina Fantasma
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